62% dos alimentos lançados no Brasil são ultraprocessados

62% dos alimentos lançados no Brasil são ultraprocessados

Um relatório do Ministério da Saúde de outubro de 2024 revelou que 62% dos 39 mil alimentos e bebidas embalados lançados no Brasil entre 2020 e 2024 são ultraprocessados, enquanto apenas 18,4% são in natura ou minimamente processados, segundo a classificação NOVA da USP adotada pelo Ministério da Saúde. Saber identificar esses produtos é o primeiro passo para escolhas mais conscientes.

Isso significa que, a cada 10 produtos novos que chegam às prateleiras, 6 são formulados com aditivos industriais, longa durabilidade e alta palatabilidade. Os outros 4? Menos de 2 são comida de verdade.

A resposta para essa concentração está no modelo econômico: ultraprocessados geram mais margem, têm prazo de validade longo e estimulam consumo frequente. É mais rentável produzir um biscoito recheado que dura oito meses do que investir na cadeia de alimentos frescos.

Por que 6 em cada 10 novos produtos no supermercado são ultraprocessados?

A indústria alimentícia encontrou na formulação industrial uma vantagem competitiva difícil de derrubar. Aditivos como emulsificantes, espessantes e aromatizantes permitem reproduzir sabor, textura e aparência de alimentos reais com matérias-primas mais baratas e maior previsibilidade de produção.

O resultado é um mercado em que o volume de lançamentos de ultraprocessados supera em mais de três vezes o de alimentos in natura, segundo o mesmo relatório do Ministério da Saúde (out. 2024). No Brasil, o consumo desse grupo mais que dobrou desde os anos 1980, passando de 10% para 23% das calorias totais da população.

O que é a classificação NOVA e por que ela importa para você?

A classificação NOVA foi criada pelo pesquisador Carlos Monteiro, da Universidade de São Paulo (Nupens/USP), em 2009. Ela organiza todos os alimentos em quatro grupos conforme o grau de processamento industrial:

Grupo Definição Exemplos
1. In natura / minimamente processados Alimentos como a natureza fornece ou com processamento mínimo Frutas, verduras, arroz, feijão, carne fresca, leite
2. Ingredientes culinários Extratos de alimentos do grupo 1, usados para cozinhar Azeite, sal, açúcar, manteiga
3. Processados Grupo 1 + grupo 2, receitas simples Pão de padaria, conservas, queijos
4. Ultraprocessados Formulações industriais com aditivos inexistentes em cozinhas Refrigerantes, biscoitos recheados, salgadinhos, macarrão instantâneo

O grupo 4 está associado ao aumento de obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares, conforme revisões publicadas no SciELO Brasil. Quanto mais itens da lista de ingredientes você não reconhece, mais próximo do grupo 4 o produto está.

Como a rotulagem frontal ajuda a identificar ultraprocessados

Desde outubro de 2024, a rotulagem frontal obrigatória com o símbolo da lupa está em vigor. Produtos com excesso de açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio precisam exibir uma lupa preta na parte superior da embalagem com a frase "ALTO EM".

Essa lupa funciona como um primeiro filtro visual. Estudos da Anvisa indicam que ela vai aparecer em:

  • 78% dos molhos, caldos e temperos prontos (alto em sódio)
  • 38% dos hambúrgueres e embutidos (alto em gordura saturada)
  • Achocolatados, refrigerantes, bolos e biscoitos recheados (alto em açúcar adicionado)

A lupa não captura todos os ultraprocessados, pois alguns escapam dos critérios quantitativos da norma. Ainda assim, é um sinal de alerta eficaz para a maioria dos casos.

5 estratégias práticas para fugir dos ultraprocessados

1. Leia a lista de ingredientes, não só a tabela nutricional.
Mais de cinco ingredientes ou palavras que você não reconhece (goma xantana, corante caramelo IV, aromatizante natural de baunilha) indicam ultraprocessado.

2. Prefira as bordas do supermercado.
Frutas, verduras, açougue e laticínios ficam na periferia. Os corredores centrais concentram a maior parte dos ultraprocessados.

3. Busque alternativas com rótulo limpo.
Biscoitos feitos com farinha de castanha de caju, azeite e linhaça têm ingredientes reconhecíveis. Granolas adoçadas com frutas secas substituem cereais matinais cheios de xarope. Confira a linha de biscoitos salgados seedz como referência de rótulo limpo.

4. Use a comparação por 100g.
A tabela nutricional por 100g é obrigatória desde 2022. Um cracker com 5g de açúcar por 100g versus outro com 15g torna a diferença objetiva e comparável.

5. Desconfie de claims de marketing conflitantes.
Produtos com lupa preta não podem exibir alegações nutricionais positivas na mesma embalagem. Se há "rico em fibras" na frente e lupa de "alto em açúcar", os números merecem análise mais cuidadosa.

Por que os ultraprocessados estimulam o consumo em excesso

Não é questão de força de vontade. Os ultraprocessados são formulados para atingir o chamado "bliss point": a combinação de açúcar, gordura e sal que ativa o sistema de recompensa do cérebro e reduz a saciedade.

Eles também têm textura projetada para dispensar mastigação adequada (biscoitos que derretem na boca, por exemplo), são hiperpalatáveis e geralmente consumidos sem atenção à quantidade.

O resultado prático: é possível consumir um pacote inteiro de salgadinho e ainda sentir fome, enquanto três maçãs já geram saciedade real.

Substituições que funcionam no cotidiano

Existem alternativas para quase todos os ultraprocessados do dia a dia:

  • Em vez de biscoitos recheados: cookies artesanais adoçados com tâmaras, como os mini cookies de castanhas seedz, sem açúcar adicionado.
  • Em vez de salgadinhos: crackers com ingredientes naturais, como o cracker de alecrim seedz ou o cracker de gergelim seedz.
  • Em vez de granola de supermercado: granolas sem açúcar adicionado, adoçadas com frutas secas.
  • Em vez de barrinhas industriais: mix de castanhas e frutas secas.
  • Em vez de refrigerantes: água com gás com limão ou chá gelado sem adição de açúcar.

O paladar se adapta em duas a três semanas de substituição gradual. Após esse período, muitas pessoas percebem os ultraprocessados excessivamente doces ou salgados.

O cenário regulatório está mudando

Algumas mudanças estruturais já estão em curso no Brasil:

  • Rotulagem frontal obrigatória desde outubro de 2024, regulamentada pela Anvisa.
  • Programa Nacional de Alimentação Escolar: 90% dos alimentos nas escolas devem ser frescos ou minimamente processados a partir de 2026.
  • Reforma tributária: prevê alíquota zero para alimentos saudáveis e tributação maior para não saudáveis, embora boa parte dos ultraprocessados ainda não esteja incluída.

Enquanto as políticas avançam, a mudança mais efetiva continua sendo saber o que está comprando e por que. A leitura do rótulo é a ferramenta mais acessível que existe.

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